Fazer essa viagem sempre foi um
sonho, uma curiosidade para saber como funcionava ou se funcionava. Quando
contamos que iríamos à Cuba, muita gente questionou a nossa decisão de levar
nossa filha. Afinal, lá não tem nada! Confesso que fiquei receosa, mas
conversei com amigos que já tinham ido e apesar deles não terem filho disseram
ser ok. Segui meu mantra de viagens com a Morena “se tem criança lá, dá para
levar a Morena”. Fiz uma mala gigante, a sogra comprou um estoque de papinha de
fruta sem açúcar pra gente levar e fomos embora.
Passamos uma semana em Havana,
conversamos muito com os cubanos tentando entender como funciona e o que eles
acham da vida que levam. Conversamos com pró Fidel e pessoas contrárias ao
regime, nenhuma delas nega as conquistas que a Revolução Cubana trouxe ao povo.
Os contrários contestam o tempo em que ele está governando e a diminuição dos
itens que podem ser retirados pela caderneta de alimentos que teve uma significativa
queda ao longo dos anos, o baixo poder aquisitivo dos salários, restrições a
informações e a dificuldade em poder sair do país (não é proibido, mas as
exigências são tantas que pouquíssimas pessoas conseguem). Essas são as
principais críticas. Um dia pegamos um taxista que conseguiu sair de Cuba, mas
acabou voltando. Quando perguntamos a ele o motivo ele respondeu “o capitalismo
é cruel”. Eles importam muitos programas de entretenimento, na TV estatal é
possível ver novelas brasileiras e até séries estadunidenses e de certa forma
eles se iludem com o consumo e glamour que o capitalismo vende. Não podemos
negar que esse sistema econômico é muito sedutor e não os culpo de se deixarem
influenciar. Sempre que possível nas nossas conversas tentava deixar claro (apesar
do meu portunhol péssimo) as dificuldades de viver em um país capitalista e
tentar desmistificar o tal do american
way of life.
Alimentação básica é bem barata,
o preço das carnes, frango e ovos são bem caros e levam uma porcentagem
significativa do salário deles. O governo cubano oferece na caderneta frango,
carne de porco e ovos, só que a quantidade é pouca e não dura o mês todo. Os
produtos de higiene são bem caros, eles ficam realmente contentes se ganham um
sabonete. Uma amiga que foi conosco levou alguns e a Morena no fim da viagem
distribuiu para os moradores da casa, todos ficaram bem agradecidos. Nós levamos
café e este também era recebido com um sorriso no rosto.
Nós andávamos pela cidade em
diferentes horários e em nenhum momento me senti insegura ou com medo, não vi
violência e nem andei pelas ruas com a sensação de medo constante com a qual eu
convivo aqui no Rio. Não vi pessoas vivendo na rua, não vi crianças roubando,
mendigando, nada. Pelo contrário, durante o dia é difícil ver criança na rua.
Elas só começam a aparecer no fim do dia depois do horário escolar. As crianças
usam um uniforme fofo que me lembrou das crianças da novelinha carrossel J
É impossível andar pela cidade e
não repensar no consumo desenfreado ao qual estamos habituados, por aqui é
comum as pessoas quererem trocar de carro em três anos, compramos muito de
tudo. Ao ver aqueles carros antigos funcionando me questionei muito. Nada se
joga fora antes de se tentar consertar e todo mundo parece entende de mecânica,
obra e reparos em geral. Mendel ouviu de uma Cubana “Aqui tudo tem solução, o
que não tem a gente encontra”. Essa frase resume bem o modo como eles lidam com
o consumo. Claro que não posso dizer se eles teriam essa mesma relação se o
bloqueio econômico não existisse, mas foi muito bacana perceber que é possível
viver com menos.
Voltei admirada e com a sensação
de que eles são incríveis e conseguem fazer MUITO com tantas restrições, é
inegável a qualidade da educação (apesar de ouvir que ela teve uma queda de
qualidade, já que alguns professores estão deixando a profissão para trabalhar
com o turismo. Setor que possibilita melhor remuneração), saúde pública de
qualidade (sobre ela só ouvimos elogios) e a segurança (essa me ganhou, a
constante insegurança da minha cidade me apavora e poder andar sem medo foi
libertador). Óbvio que eles enfrentam problemas sérios, estaria sendo no mínimo
ingênua se não os reconhecesse. No entanto quando coloco na balança os nossos
problemas com os deles, eu chego a conclusão que no geral eles vivem melhor que
a gente e possuem uma qualidade de vida acima da nossa.
Quero voltar ao país com mais calma para viajar pelo interior, conversar mais e fazer algumas leituras. Esse texto é só uma forma de não perder as lembranças e impressões que ainda estão frescas e na verdade eu ainda preciso de muita reflexão sobre essa viagem e tentar entender esse país incrível!
Obs: Não tivemos nenhum problema com a nossa alimentação, comemos muito bem todos os dias. Morena comia frutas, legumes, se acabou de comer peixinho... enfim, problema nenhum ir com uma criança para Cuba.
Amamentando no Malecón
Museu da Revolução
Praça Velha. Amei essa praça.
4 comentários on "Havana - Cuba: Uma viagem inesquecível."
Que delícia de viagem! Cuba deve ser um país encantador! Ainda mais para vcs, professores de geografia, a experiência é ainda mais rica!
Nos últimos dias está se falando mais de Cuba e lendo seu relato dá pra entender bem como o povo vive.
Um lugar que quero com certeza conhecer, imersão de cultura fantástica.
Bjs
Uauuu....amei o relato!
Tenho vontade de conhecer Havana e realmente deve ser uma viagem pra refletir sobre como vivemos aqui, como estamos vivendo hoje, esse consumismo à mil!
beijos!!!
Gábi
Matéria incrível e desmistificante, já que Cuba é envolta em lendas e mistérios...Parabéns Danee pela iniciativa
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