As dores aumentavam, estavam mais frequentes e com uma duração maior. Por volta das 22h elas já duravam mais de um minuto e praticamente sem intervalo entre elas. Mais uma vez fui pra de baixo do chuveiro com o Mendel sempre ao meu lado. Eu gritava quando vinha a contração e perguntava cadê a Kira que não chegava. Foi só eu terminar a pergunta que o interfone tocou, fiquei muito feliz dela ter chegado e que a partir daquele momento teria as massagens dela (santas massagens). Saí do box, Mendel me secava e lá vinha mais uma contração. As pernas bambearam e tive que me apoiar nele pra não cair.
Me levaram para o quarto pra Kira fazer o exame de toque pra ver quanto estava de dilatação, eu estava com medo de estar com aquela dor toda e ter somente 2 cm de dilatação. Ela fez o exame e não conseguiu verificar direito e pediu que eu ficasse deitada de barriga pra cima que ela tentaria verificar na próxima contração. Ficar deitada de barriga pra cima tendo contração foi 3 momento mais difícil do TP. Quando terminou o exame ela fez um sinal de positivo pro Mendel e perguntei com quanto eu estava de dilatação, ela disse que eu já estava com 8 cm.
O Mendel foi tomar banho, eu tomei banho e seguimos pro carro. Antes de sair de casa lembrei de pegar a Nossa Senhora do Bom Parto dada por minha mãe no início da gravidez. Do caminho de casa até a garagem tive umas duas contrações, quando elas vinham eu me apoiava na Kira. Entrei no carro e veio uma contração tão forte que a santinha que estava na minha mão voou longe e eu fui o caminho todo pendurada no puta que pariu. Ficar sentada parecia impossível, a cada contração a Kira pedia pro Mendel reduzir a velocidade. Nesse momento eu entrei na partolândia e não conseguia prestar atenção ao que acontecia a minha volta, olhava pela janela do carro e não fazia ideia de onde estava, mesmo conhecendo o caminho. Aguentar as contrações no carro com pouca mobilidade e sem água quente foi o segundo pior momento do TP.
As contrações vinham e eu gritava me apoiava na porta do carro o que fazia com que o vidro ficasse abaixando e levantando. Se você passou pela Linha Amarela na noite do dia 15/07 e viu uma mulher com cara de louca e gritando era eu hahaha. Chovia muito e eu gritava pro Mendel acelerar e a Kira pedia pra ele reduzir. Quando estávamos chegando eu comecei a sentir vontade de empurrar e gritava que ia fazer cocô no carro (antes de engravidar o meu maior medo era fazer cocô no parto, a minha médica disse que um dos primeiros sinais que a gente tem ao entrar em TP é fazer bastante cocô e realmente eu fiz um gigante logo depois da bolsa estourar e apesar de ter a sensação de querer fazer cocô eu não fiz em momento algum do TP. Eba!)
Finalmente chegamos no hospital. O Mendel estacionou e saiu correndo pra dar início na minha internação e eu fiquei com a Kira no carro esperando a Fernanda chegar. Em menos de um minuto a Fernanda chegou e com muito custo e duas contrações depois a Kira conseguiu me tirar do carro. Segundo o Mendel eu entrei na maternidade berrando e as pessoas que estavam no saguão de entrada ficaram assustadas comentavam que eu estava sofrendo e que estavam com pena e o Mendel dizia que um TP era assim mesmo e que estava tudo bem. A Kira foi me levando pra um elevador e minha médica disse pro Mendel acelerar senão ele ia perder o parto. Entramos eu, Kira (EO), Fernanda (obstetra), Cláudia (pediatra) e por último entrou correndo o Mendel, a porta já fechava e eu com contrações e tudo a segurava pra ele entrar. Lembro que tinha duas outras médicas dentro do elevador que reclamaram com a minha médica que eu não poderia subir por aquele elevador. Minha médica respondeu de forma ríspida que eu subiria sim por aquele que o bebê já estava nascendo. Eu levantei a cabeça que estava apoiada na Kira e mandei a mulher tomar no cu. Sim, com todas as letras. Vai brincar com uma mulher em trabalho de parto. hahahahahah
Chegamos no centro cirúrgico, a sala de parto humanizado fica dentro do centro cirúrgico me levaram pra uma salinha, tiraram a minha roupa e me colocaram aquela camisola sexy de bunda de fora e fomos todos pra sala de parto. Entrei na sala e falei que queria a banheira, a Fernanda me disse que não tinha tempo pra banheira que Morena já estava nascendo. disse que ia ao banheiro fazer cocô e ela disse que não era cocô que era Morena nascendo. Todas as vezes que dizia que queria fazer cocô ela repetia que era a Morena nascendo.
A cama era parecida com essa da foto, elas colocaram essa barra presa na extremidade da cama e me posicionaram de quatro, com os joelhos no chão e os braços apoiados na cama. Eu não me adaptei a essa posição, pois quando eu fazia força fechava as pernas e atrapalhava a passagem. A kira decidiu me mudar de posição e sentou o Mendel na ponta da cama, eu fiquei entre as pernas dele segurando na barra e de cócoras. No intervalo entre as contrações eu relaxava o meu corpo e o Mendel me segurava por de baixo dos braços. Kira e Fernanda estavam sentadas no chão e a pediatra em pé no canto da sala. A cada contração eu fazia força, mas não gritava com medo de gritar e desviar a força pro lugar errado. Apesar de fazer muita força parecia que nada estava acontecendo.
Nessa hora o ritmo entre as contrações diminuiu um pouco e eu fiquei com medo do TP travar. Na tentativa de retomar as contrações chamei a Morena, falei pra ela vir que eu e o pai dela estávamos de braços abertos pra recebê-la. De repente comecei a sentir necessidade de gritar junto com a contração, na primeira força ela coroou e senti o tal do círculo de fogo, esse foi o pior momento do TP, queima muito! Mais duas forças, um grito enorme e a voz do Mendel ao fundo falando pra eu abrir os olhos que ela tinha nascido. Lembro de pensar que se ele estivesse me zoando e eu abrisse os olhos e ela não tivesse nascido expulsaria ele da sala. É que ele fazia algumas piadas no TP.
Abri os olhos e lá estava ela linda, coberta de vérnix, presa em mim ainda pelo cordão de olhos e bracinhos abertos. Peguei ela no colo, deixei o corpo sentar no chão e olhava pra ela e pro Mendel sentindo uma alegria e emoção que nunca tinha chegado nem perto de sentir. Morena não chorou forte, ela fazia só uns barulhinhos. Olhei pra pediatra perguntando se estava tudo bem e o diagnóstico dela foi: Sim! Sua filha é bochechuda, se não estivesse eu não estaria aqui parada.
Morena nasceu as 00:40 do dia 16/07/2013 depois de 12 horas de trabalho de parto, em uma sala escurinha direto pro meu colo e nele ficou por mais de uma hora. Não teve colírio, aspiração e exames desnecessários. Recebeu apgar 9/10. O pai cortou o cordão só depois de parar de pulsar. Foi ao berçário somente pra pesar e medir, não ficou um só minuto longe dos pais e foi pro quarto junto comigo. Depois que cheguei no quarto o Mendel foi procurar a chave do carro, carteira dele e meus documentos. Ele largou tudo na recepção e saiu correndo depois que a Fernanda disse que ele perderia o parto se demorasse. Antes de ir embora a Kira me disse que mentiu pra mim que em casa eu já estava com os 10 cm de dilatação. Definitivamente Morena quase nasceu na Linha Amarela.
Foi um parto lindo e rápido somente uma hora após chegar no hospital (o cartão do estacionamento mostrava que entramos as 23:40) Morena já estava em nossos braços. Pela manhã ligamos pros nossos pais avisando do nascimento da nossa passarinha e eu que ainda não tinha chorado, me desmanchei ao avisar à minha mãe que Morena finalmente tinha nascido.
Morena nasceu tão rápido que não deu tempo da fotógrafa chegar, ela chegou uns dez minutos depois que ela nasceu. Fotos: Bel Junqueira
Até hoje ela vive com essas mãozinhas no rosto.
Placenta e cordão umbilical.
Mamando na sala de parto.
Babões.
Mendel, minha doce Kira, minha amada Fernanda que briga contra o sistema pra que a gente possa parir de uma forma menos mecânica e mais humana e Cláudia que virou a pediatra da Morena. A equipe que me ajudou a trazer minha passarinha ao mundo. Obrigada, muito obrigada!






